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Angel Cabeza é cantor, compositor, poeta e cronista.

É autor do livro "Bíblia Infantil", a ser editado pela Geográfica editora ainda este ano, uma adaptação da bíblia para crianças.

Cursou letras e, atualmente, assina uma coluna de crônicas no jornal Prisma. Escreveu para diversas revistas eletrôncias, entre elas, Famigerado e Bula. Publica, regularmente, artigos no jornal Ganesha.

É, também, terapeuta floral, reikiano, numerólogo e se dedica aos estudos religiosos.

Banda Disco de Vinil http://bandadiscodevinil.sites.uol.com.br

Contatos com o autor angelcabeza@oi.com.br

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29/1/2007

POEMA & CRÔNICA


:: HOMENAGEM A PIXINGUINHA ::

Pois é no choro,
no chorinho aguado da vitrola antiga,
que a minha alma lava
os seus esquecimentos.


:: O MUNDO ESTÁ ACABANDO ::

Estive fora por alguns dias. Aliás, “alguns” é eufemismo. Estive fora mesmo foi por meses. Fora de tudo, política, economia, cultura. Foi como se eu estivesse em um exílio interior, viajando por lugares aonde o mundo moderno e agitado jamais chegaria. Desliguei-me dos jornais, das notícias, das televisões e de tudo o mais. Estive fora até de mim. Tem horas em que você deve fazer uma lavagem mental e esquecer de tudo, até de seu nome. Só me faltou subir a uma montanha e meditar com monges, acima das nuvens. Tirei umas férias longe da civilização letrada. Contudo, até o mais calmo dos ambientes enjoa. E enjoei de estar fora de tudo. Regressei ao mundo plano a que faço parte e me recompus com tudo o que há de mais complexo: a vida.
Respiro tudo o que perdi nestes meses de exílio. Os pulmões sentem falta das atividades diárias, dos barulhos e dos vícios modernos. Respiro e, logo de primeira instancia, fico sem ar. Não queria, juro que não queria afirmar isso, mas o mundo está acabando, e esta é uma grande e irrecusável verdade. Todas as profecias estavam certas. Nostradamus, a bíblia, Gentileza, todos estavam absolutamente corretos. Chegamos à era do apocalipse, definitivamente.
Concluo isso após o caso de um novo, cômico e sério tipo de roubo que está afligindo o nosso querido Rio de Janeiro e suponho todos já saberem: de cabelos. Era só o que faltava, já nos roubam luz, água, telefone, dinheiro, privacidade e, agora, os cabelos. Foram dois casos de cabelos roubados. Os ladrões agarraram os rabos de cavalo das moçoilas, passaram à tesoura e saíram correndo com as madeixas balançando. E as mulheres, sentindo-se violentadas – é ou não é uma violência para a mulher arrancarem os seus lindos coques ou seus rabos que demoram anos para crescer? – nada podem fazer, pois tudo é tão rápido que quase não se vê. Se antes estávamos com medo de armas de fogo, agora temeremos os barbeiros e salões de beleza. Será um trauma ir ao cabeleireiro para aparar as pontas ou tosquiar tudo de uma vez.
Antigamente, ficava-se careca de preocupação, de velhice. Hoje, fica-se careca porque o desemprego está alto e, para ganharem algum, nos roubam os cabelos. A abordagem do assalto moderno era o grito de “passa a bolsa”, sem opções para a vítima. Hoje não, você tem as opções “passa a bolsa” ou “passa o cabelo”. Estou até pensando em batizar esse tipo de roubo de “roubo escalpe”. Nem nossas cabeças estão mais seguras. É ou não o fim do mundo?
O pior é que ninguém sabe se é uma quadrilha, uma gangue internacional, gangsteres ou algum careca que, por raiva de não ter cabelos sedosos como os das mulheres, ou melhor, por não ter um fiapo sequer, está arrancando os dos outros. Quem sabe o Valério?
Enquanto o mundo estiver sucumbindo com suas pragas modernas sem solução, é obrigatório o uso de bonés da porta de casa para fora. Eu já estou adquirindo o meu. Não quero ser pego de surpresa por algum larápio e, sem sentir, meus cabelos virarem peruca para aquecer a cabeça de alguém por aí. Também devemos fazer um “seguro-madeixa”, assim, quando nos roubarem, poderemos repor os fios perdidos junto ao órgão fiscal de cabelo privado. O ruim vai ser quando você for repor o seu cabelo preto e só tiver louro ou branco.
Definitivamente, o mundo está acabando. Até agora eu ainda não acreditei nos ladrões de cabelo, mas... As pragas estão aí e não temos como contê-las. Pelo menos defendamos nosso espaço com unhas, dentes e cabelos.

obs: tive alguns contratempos que impediram uma atualização mais rápida. Deixo aqui meu pedido de desculpas a todos.


Escrito por Angel Cabeza às 21:26
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9/12/2006

POEMA SEM NOME

ANGEL CABEZA

Pintura de Klee



Eu tenho uma propensão para a tristeza.
Não essa tristeza de velhos homens,
entrelaçados nos seus afazeres diários,
que nunca se satisfazem com as pequenas
alegrias.
Minha tristeza é diferente.
Tenho uma alegre tristeza de dias
de inverno, quando olhamos pela janela
e lá do outro lado vemos
a garoa fina nascendo.
Converses comigo e verás um fino
sorriso triste.
Sou um filme romântico que nunca chega ao fim e
onde todos esperam que as bombas não explodam;
que a carne não se vá.
Como os homens são pequenos dentro de
suas grandes existencialidades!
Morrem vivendo, vivem morrendo.
Estão sempre atrás de seus grandes sorrisos.
Definitivamente, as tristezas são encantadas.


Escrito por Angel Cabeza às 22:11
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O SEGREDO DO AMOR

ANGEL CABEZA

Moça com ventarola
Pintura de Gauguin



Nunca vi acontecerem tantas rupturas afetivas, em tão pouco tempo, como hoje em dia nos são apresentadas através das enormes listas das mídias televisivas. Digo rupturas afetivas porque podem existir outros tipos de rupturas, por exemplo, como de ligamentos, de salários, rupturas políticas, entre outras tantas que poderiam ser relatadas aqui, mas tomariam muitas páginas e cansariam a bela imagem mental dos leitores. Todavia, as rupturas afetivas, popularmente conhecidas como desquites, tomaram as páginas visuais dos meios de comunicação e impressionam, desde as antigas senhoras em suas poltronas de couro até nossos modernos rapazes e moçoilas, tecnologicamente avançados.

E não são apenas os desquites de cunho casamenteiro que estão perambulando livremente por aí. Também existem os desquites entre namoricos, entre noivos, entre affairs, e todos assim, como um flash, ou relâmpago, que não deixa vestígios. Basta que se ligue a televisão para que nos seja jogada uma bomba semanal sobre algum casal que, subitamente, se esvaiu entre abraços e beijos eternizados... em quantos dias mesmo? Uma semana! Basta que saiam estampados fulgurantemente nas capas das conceituadas revistas de famosos e, pronto, dias depois já não trocam mais elogios, mas sim, buracos em meio às estradas do coração. Será que existe alguma maldição em torno dos fotolitos ou das páginas a quatro cores que permeia a vida conjugal dos chiques pombinhos?

Peguem algumas lembranças antigas, guardadas nos velhos baús dos avôs, avós, pais, mães, etc., principalmente as pretas e brancas, e comprovem: o amor antigamente tinha um tempo maior de ação. Não eram necessárias bulas e manuais. Muito menos existiam contra-indicações para dosagens mais altas. O altar era uma nuvem alva para os dias de sol dos casais. E quando chovia, bastava que se protegessem embaixo de alguma marquise ornada por eles mesmos onde as gotas que escapavam fariam com que rissem de alguma coisa esquecida. Estavam ligados até o padecer do corpo, pois as almas estariam para sempre unidas.

Depois, vinha o susto pela pergunta: eternizados por quantos dias mesmo? Trinta e cinco, quarenta, até cinqüenta anos consecutivos sem uma separação ou cogitação de cada um seguir para um outro lado. Essa seria a resposta.

Séculos são séculos e devem ficar para trás, junto com a poeira das lembranças. Mas dava gosto admirar os casais, velhinhos, trocando carícias e beijos encabulados, simples, apaixonados, como os de duas crianças sem nenhuma maldade. Isso era a realidade amorosa dos anos dourados. As casas eram iluminadas. As paredes tinham ouvidos. E por mais longa que fossem as salas, os quartos e corredores, os corpos estariam na proximidade do pensamento. Quando um se sentava no sofá para assistir algo, ou apenas descansar, o outro, instintivamente, sentava-se ao lado também, aparando levemente com os ombros a cabeça que era baixada pelo sono. Tinha casos de se esbarrarem na cozinha e acharem que presenciaram aquilo em outras vidas. Eram feitos um para o outro. Em sonhos, se encontravam para um passeio além mundos. É certo que se viam pouco (o que era bastante útil para o relacionamento), já que o homem tinha o dever de proporcionar à sua amada os prazeres de uma vida tranqüila, sem problemas, e com o máximo de afeto possível. E a mulher esperava ansiosamente o homem, cheia de saudades, como se fosse morrer caso ele demorasse um pouco mais do que o normal. A saudade estava até mesmo pelos cômodos da casa, cômodos grandes, espaçosos, amplos de sentimentos. Bastava que se tocasse em alguma parede para despertar algum acontecimento.
Hoje está tudo diferente. Foi-se o tempo das coisas sublimes. O passear pelos jardins, arte que só os amantes dominavam bem, não existe mais. As mãos dadas e o brilho nos olhares recônditos do casal, sinal de uma relação eterna em que eles queriam, mas não ultrapassavam o sinal vermelho, a timidez e os sorrisos sem espera dissolveram-se. Os sorvetes que eram consumidos a dois, ficando marcados para sempre na lembrança, e os beijos que eram dados cuidadosamente na maça do rosto, quase como uma brisa leve de verão, também foram abolidos. Nada existe mais nas horas dos amantes. As fotos são coloridas e não guardam a eternidade nelas.

A modernidade trouxe benefícios, porém, também trouxe com ela atrofiamentos. E o atrofiamento dos sentimentos foi o mais prejudicial deles. O contato pessoal que nossos antepassados tinham foi dissimulado. As fotos estão cada vez mais rasas e solitárias. Basta um flash e, no dia seguinte, uma pedra aparece no meio do caminho. Contudo, é preciso conviver com as pedras do caminho e saber moldá-las em sonhos. Esse é o ponto chave.
Mas como eram belas as casas antigas, iluminadas, grandes na sua pequenez interna. Atualmente tudo é compacto e está à mão – e eu até gosto em alguns poucos aspectos. É isso! O segredo do amor está é nessas casas. As amplas casas de outrora produziam a saudade perene dos corredores intermináveis e da ausência sentida, perdida pelos sofás unificados e rostos que se contemplam cotidianamente.

Casas amplas e saudosas, esse é o segredo do amor.




:: AGRADECIMENTOS ::

Fui surpreendido pela publicação de minha crônica “Seis Estrelas” e do meu texto sobre Quintana no Blog “Coluna Cultural Telescópio”, do jornal eletrônico “Telescópio”, do Editor Everi Carrara

Visitem o jornal em http://telescopio.vze.com e o blog em http://telescopio.blog.terra.com.br.


Escrito por Angel Cabeza às 22:05
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A DANÇA SIMBÓLICA DE LUCIANO BONFIM


ANGEL CABEZA




Escrever literatura em um país que “quase” não lê literatura é uma tarefa árdua. Muitos ficam pelo caminho. Outros entram na miragem do deserto literário e jamais retornam. Escrever é padecer de suas palavras. Escrever não é um dom, mas um trabalho em que poucos são destacados e muitos são crucificados.

Uma vez perguntei a um professor de literatura o que era conto. A resposta? “Tudo o que você quiser chamar de conto”. Estranhei a mesma, mas, na época, eu ainda era muito jovem e havia começado a ler os modernistas. O mesmo havia dito que os meus poemas eram fragmentados e que não tinham peso literário. Ri e dei as costas. Cada filho, por mais feio que seja, é amplamente amado. E é deste amor que nasce a dança simbólica de Luciano Bonfim.

Já o tinha retratado em “Beber Água é Tomar Banho por Dentro”, excelente livro de poemas. Agora, nesta outra obra sua, “Dançando com Sapatos que Incomodam”, pude constatar que Luciano irrompeu as barreiras da literatura, especificamente do conto.

Quando falamos em contos, imaginamos textos com mais de seis páginas, imagens, linhas temporais, células dramáticas, etc. Não, nada disso se pode esperar de Luciano, mesmo porque os contos não estão na sua fôrma, mas na alma. Luciano teve a coragem de se sobrepor ao clássico e recriar, em linguagem própria, os seus próprios métodos textuais. Não direi experimental, pois tudo, por mais experimental que seja, tem o seu valor literário. Entretanto, em um destaque a parte, o autor foi extremamente inventivo e condensado. Um livro de contos que possui apenas 50 páginas e 29 micro-contos é um romper de barreiras e form

“Dançando com Sapatos que Incomodam” é um livro cheio de símbolos e imagens. Provindo da literatura Cearense, retrata de forma clara e direta muitos dos problemas sociais e familiares do Nordeste, como a seca, os duros dias das famílias pobres e a falta de emprego, principiando pelo título do livro. Ao folhear suas páginas encontram-se pedras e terra em contos como “Sina”: “...as caminhadas até o poço atrás de água...” ou “...a fome, a ida pra roça levando o “de comer” e o “de beber ” para os trabalhadores...” ou em passagens como: “... Meus irmãos, Dagoberto e Felismino, quiseram conhecer outras faces não tão secas... outras lastimações...”.

Distorcendo as linguagens formais, clássicas, dos contos tradicionais, o autor optou por estar mais perto da realidade dos fatos, aguçando os ouvidos dos leitores com diálogos onde a regionalidade, muitas vezes, permeia suas passagens, como lemos em “Na Brevidade Das Fugas”: “...vai morrer feladaputa! “Fez arrumação” de partir pra mim. Antes de ele se levantar lhe plantei três facadas...”.

Entretanto, além do social e da vida dura no chão do nordeste, mais diretas e desmascaradas, Luciano consegue incluir em muitos contos pensamentos mais filosóficos, que fogem do social e criam um ar transcendente nos textos: “Existem mundos destruídos pela imensa vontade de os preservarmos” ou “Toda prisão é dentro da liberdade”, também voltada à questão social (livres, mas presos na realidade dura da região onde sobrevivem).

“Dançando com Sapatos que Incomodam” é um livro misto de dor, alegrias, subjetivismos e, em alguns momentos, de poesia. Luciano não só se revela um crítico social, denunciador, mas um contista subjetivista e escultor, que talha os padrões normais, recriando tudo a sua maneira, a seu olhar; é um livro que denuncia, sonha e faz literatura, subjetividade do mundo.
Luciano Bonfim é graduado em Pedagogia pela Universidade Estadual do Ceará, e professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú. Publicou: Janeiros Sentimentos Poéticos – poemas; Beber Água é Tomar Banho por Dentro - poemas. Tem conto no Almanaque de Contos Cearenses (ed. Bagaço, 1997) e na revista CAOS PORTÁTIL (2005 e 2006).
Escreveu para o teatro “As Mulheres Cegas” (premiado no Festival de Teatro Amador de Acopiara-Ce/2000), Auto do menino Encantado e o Jabuti e o Gigante (premiado no Concurso Domingos Olímpio de Literatura - 2005).

Dançando com Sapatos que Incomodam
Luciano Bonfim
50 páginas
Edição do Autor
contatos com o autor e compras:
luciano.bonfim@yahoo.com.br


Escrito por Angel Cabeza às 21:48
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5/11/2006

MINHA PRIMEIRA VEZ

Pintura de Miró





Finalmente o site

É com prazer que convido vocês a visitarem o meu site, criado recentemente.
Nele, vocês poderão conferir um pouco mais sobre mim.
Visitem o www.angelcabeza.oi.com.br

MINHA PRIMEIRA VEZ

Angel Cabeza

Resisti ao máximo para que não acontecesse comigo. Sou daquele que não se importa em dizer com quantos anos tinha começado; feito. Não, até hoje nunca tinha feito. Não sou do tipo que se enobrece com feitos deste gênero. Tinha era um temor, um exaspero profundo, só de pensar que poderia, algum dia, pisar no metal frio e ser erguido como pluma ao lado dos pássaros. Entretanto, certas coisas devem, e precisam, acontecer. É o tipo de situação que não há volta, ou você se joga do décimo andar ou você enfrenta o seu oponente, e achei mais sadio enfrentá-lo, mesmo que contra a minha vontade.

Era a minha primeira vez em um avião. Nunca havia entrando em um, nem para conhecer. Nunca havia pisado em um aeroporto, nem para comprar aquelas bugigangas caríssimas que por lá são vendidas. Precisei ir e pronto, sem saudade, sem um reconhecimento de campo, sem treino, sem lamentação e sem o grito de socorro que normalmente é expelido pela garganta. Fui sem olhar para trás.

Desde o dia anterior a minha viagem fiquei a imaginar as horas perturbadoras que eu passaria dentro daquele boing, daquela caixa de metal mais pesada que um carro e mais leve que uma pena. Pensava em fugas mirabolantes e até mesmo no imprevisível. O que fazer caso aquilo despenque? Lá ia o cronista se esborrachar em alguma planície verde, bem patriótica. Quem sabe um pára-quedas? Por que não? Os navios não possuem os seus botes salva-vidas para caso afundem? Por que os aviões não podem ter seus pára-quedas para uma emergência? Suposições. Nós sempre geramos suposições quando algo de anormal começa a espreitar a nossa alma. A cada passo no aeroporto era como se eu fosse um garoto com medo do parque de diversões. Quando mais jovem sentia um pavor do trem fantasma até entrar nele e descobrir que tudo era feito de um trapo que nem te conto. Mas lá, no avião, era diferente. De lá eu poderia jamais voltar. Tudo bem, exagero ou pessimismo, mas, para mim, não, com certeza não era. E eu ia, ficando. A cada passo, entrando naquela rampa escura que levava ao interior da nave, lembrava-me da entrada das montanhas-russas. Até o cheiro me lembrava o parque de diversão e a montanha que eu, até hoje, temo. Sou uma pessoa da terra. Do céu já me basta a chuva. O resto é para os pássaros.

Entrei como quem entra em um campo inimigo. Sentei-me, precisamente, à janela. E logo eu, que nunca tinha voado, sentei-me à janela. Aqueles barulhos de motor sendo ligado e os sinais luminosos começando a aparecer me fizeram crer que Dummont só poderia estar com algum problema quando inventou o 14 Bis. Onde já se viu, pequeninos que nós somos esvoaçando por aí feito àqueles super-heróis dos desenhos. Entendam: somos destrutíveis.

Morrer de medo de avião é uma coisa, ter pânico é outra. Mas o que eu tenho mesmo é aviofobia (gostaram do neologismo?). Quando aquelas asas se envergaram e as poltronas se inclinaram para trás apertei o mais forte que pude o meu sinto – como se ele fosse o meu último recurso de sobrevivência – e senti o meu estômago reagindo ao descer da montanha russa, enquanto eu subia lentamente, como se aquilo nunca fosse acabar. Foram minutos ruins, com certeza. Mas todos esses minutos são compensadores quando você está planando por cima do paraíso que existe além terra. Parecia que eu havia finado e estava do outro lado, no céu. Era tudo uma grande calmaria. Não havia nenhum tipo de interferência sonora, apenas o azul celestial e as nuvens brancas sob meus pés. Agora entendo o quão felizes são os anjos, pois estão naquela brancura eterna de Deus. Uma brancura tão intensa que chega a cegar os olhos. Ali eu poderia escrever quantos fossem os poemas sem a interferência do homem. Poderia amar e ser amado sem os olhares obtusos dos invejosos. Ali, eu estaria em sossego com algum anjo; em sossego comigo mesmo. Se morrer é estar neste paraíso, serei o primeiro da fila.

Depois disso, o avião tornou a inverter meu espírito, pousando em terra firme e fazendo-me retornar ao corpo, para o meu alívio. E, ao desembarcar, fiquei com a estranha sensação de ter visitado o paraíso acima de nossas cabeças; de ter passeado por um momento em algum pedaço do paraíso, por onde somente os realmente fortes conseguirão passar.


Escrito por Angel Cabeza às 16:27
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30/9/2006

ATENTADO

ANGEL CABEZA

PINTURA DE PAUL KLEE


O técnico, perdendo o jogo para o time do Irã, solicita a Temério, jogador reserva, que entre em campo e mostre por que é chamado de “pés de chumbo”.
- Temério, é a tua vez! Vá lá e mostre para eles o que é futebol. Estás escutando?
- Estou! Deixe-me beber um pouco d’água antes?
- Que água nada. Vá lá e faça com que eles percam bastante água.
- Mas eu preciso trocar a chuteira, pois está não dá sorte!
- Use esta mesma! Está ótima. E sorte, eles é que precisarão.
- Mas, mas... O Sr. sabe que não é assim!
- Temério, anda logo! Eu já pedi a saída do Josevaldo.
- Peça para ele esperar um pouco mais?
- Não posso, Temério! O jogo está paralisado, esperando pela tua entrada.
- Mas eu preciso colocar a camisa branca. Está vermelha está me incomodando.
- Temério, pelo amor de Deus, use esta camisa e vá logo. Nós não estamos em uma tourada, mas em um JOGO DE FUTEBOL!
- Deus?... Deus não... é Alah!
- Temério, tu estás ficando maluco? Tanto faz quem esteja olhando por nós. No mínimo, já deve estar ficando nervoso com tanta demora.
- Posso ir ao banheiro antes? É que me deu uma dor de barriga...
- Temério, o que é isso? Dor de barriga? Não me digas que tu estás com medo?
- Medo, eu? Claro que não. É que eu estou querendo me precaver. Posso colocar o amortecedor de impacto a prova de balas por baixo da camisa?
- Amortecedor do que? Bem que eu sabia. Estás é com medo de entrar no jogo? Não te garantes? E os teus “pés de chumbo”, ora?
- É só uma alcunha.
- Eu sei, mas tu a adquiriste por causa dos seus 800 gols na copa. E aí, hein, hein?
- É, mas agora é diferente.
- Diferente o que, Temério? Estou perdendo a paciência, meu Deus!
O juiz começa a chamar a atenção do técnico e de Temério, solicitando que entre logo em campo. Os jogadores do time rival já começam a demonstrar impaciência, também solicitando a sua entrada.
- Estás vendo? Não disse que não era para dizer Deus e sim Alah?
- Temério, isso não importa. O que importa é que tu precisas entrar em campo, sem beber água, sem trocar a chuteira, sem mudar a camisa, sem ir ao banheiro e sem colocar este tal amortecedor. E já!
- Ah!, mas o capacete eu vou colocar, sim. Não adianta. Colocarei e pronto!
- Capacete? Isso não é futebol americano, mas sim, um jogo de FUTEBOL “brasileiro”.
- E se alguma bala perdida vier a me atingir?
- Bala perdida? Que bala perdida? Se tu não entrar agora quem vai dar tiro aqui sou eu!
- Mas, o senhor não está entendendo, é muito perigoso entrar assim, de súbito.
- Perigoso o que, Temério? Pelo amor de Deus, entra logo!
- Estás vendo? Tu estás provocando. Aí, depois quem se ferra sou eu.
- Provocando o que, Temério.
- O time adversário.
- E o que é que tem o time adversário? Até agora, pelo que eu sei, eles estão é com muita sorte. 4 a 1. Precisamos virar!
- Eles são Iranianos!
- E daí, Temério, qual é o problema?
- Ué, o senhor não lê jornal? Não escuta as noticias? Tudo está se acabando. É o fim do mundo. Os atentados estão embaixo dos nossos olhos.
- Temério, isso é apenas um jogo de futebol, FU-TE-BOL, entendeu?
- Sim, mas e se algum deles estiver com uma bomba embaixo da blusa? Pode haver homens-bomba no time adversário. Tudo está um horror! Outro dia mesmo eu ouvi que um homem se explodiu matando. . .
- Temério, cale a boca e entre logo, senão, quem vai acabar cometendo um atentado sou eu!
- E a bomba?
- Que bomba, Temério?
- Ué, a bomba que eles podem ter colocado dentro da bola?
- Bomba? Bola? Acho que esses noticiários não estão te fazendo bem!
- E quando o senhor disse meu Deus, não viu?
- Não vi o que?
- Como eles olharam para o senhor?
- Olharam como?
- Como se tivessem colocado veneno na água do nosso time. Já pensou como seria esse atentado?
- Temério, pára com isso, tu estás me assustando!
- Não disse, não disse. É isso mesmo. Ontem eu li que morreram não sei quantos dentro de um estádio. E de futebol!
- Vamos parar com esta brincadeira, Temério, e entrar logo em campo.
- Não é brincadeira. O senhor tem que ver os noticiários. Aquilo lá está uma guerra que só vendo.
- Temério, se tu não entrar em campo poderemos perder.
- Mas é melhor perder o jogo do que o pé, o braço, a cabeça, a vida.
- Credo, Temério, que coisa! Entra logo e vamos embora.
- E as minas?
- O que é que tem as minas?
- Ué, pode ser que eles tenham colocado minas na grande área. Aí, quando eu estiver quase fazendo o gol, BOOOM, saio voando pelos ares.
- Temério, não existem bombas no campo.
- Mas e a bola?
- Que bola?
- A bola do jogo, ora.
- O que?
- Ela pode ter uma bomba dentro esperando apenas por um chute, um chutinho só que seja, para mandar para o além o jogador e até mesmo o goleiro.
- Temério, pare com isso! Assim tu estás quase me convencendo.
Temério foi empurrado pelo time e puxado pelo juiz para dentro do campo, de onde, a cada jogada, fazia gestos para o técnico, como se estivesse insinuando alguma coisa.
E ninguém entendeu quando o técnico se jogou no chão, rolando para detrás dos bancos com um pedaço de ferro na mão, assustado com o estrondo de um rojão solto pelo gol de Temério.


Escrito por Angel Cabeza às 20:13
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20/8/2006

DANÇA PARA TRÊS: DOIS POEMAS E UMA CRÔNICA

ANGEL CABEZA


Pintura de Chagall


.:CONFISSÃO:.

Rúbia olha:
- eu sei que tudo o que faço
dança ao contrário de tua música.
E eu queria, juro que queria,
aprender uns passos novos;
rodopiar feito um pião recém comprado;
agitar-me nesta grande roda azul;
trazer-te, quem sabe, belas flores
colhidas na garoa.
Mas não entendo nada de flores,
muito menos de piões.
Só tenho estas frágeis mãos que
desferem golpes em preto esperando
um bonde de vozes que nunca chega.
E muito menos sei desferir golpes em preto.
Fugiu-me a leveza do ser
e me ficou-me o mármore frio.
Lembre-se, quando me beijar
deve ser com a ternurinha dos
pequenos passarinhos.
Posso me quebrar ao menor sinal
de vento.


*

.:ANTIMUSICAL:.

A morte é um grande palco iluminado
de azul onde se toca sempre a mesma
sinfonia.
E ai de quem, por um acaso,
ousar ressoar um meio-tom!
Jazerá neste velho mundo,
velho mundo tão
antimusical.

*


Guarda-Chuva - Pintura de Magritte


.:OS PERDIDOS:.

Onde será que vão parar os guarda-chuvas perdidos? Todos eles, amarelos, pretos, floridos, alguns que parecem barracas de água de coco e possuem uma ponta enorme de furar olho. Onde estão? Será que existe algum lugar, além de nossa compreensão e recôndito no universo, que abriga estes eternos objetos da vida moderna quando os perdemos? Esta, sem dúvida, é uma pergunta difícil de se responder.
Nunca gostei mesmo dessas barracas! Servem apenas para fazer volume entre os pacotes e envelopes diários. Quanto à chuva, não sou feito de açúcar e posso me umedecer um pouco. Mas, não penses que eu nunca possuí esse tipo de “adorno”, não! Eu, como diversas e diversas pessoas neste mundo oval, já fui segurança inestimável dessas aranhas pretas. Se eu for contar quantos, diria uns trinta. Se perguntares se ainda os tenho, te digo, meu caro amigo, apenas um. Como? Ficaram por aí, em bancos de praça, ônibus, escritórios, hotéis, restaurantes; alguns, pernetas, foram internados, outros, joguei fora de tanta raiva contida, pois há momentos em que somente delongam a vida. Pior ainda são aqueles automáticos, que quando tu estas na fila do banco, matutando em tuas contas, disparam fazendo um barulho enorme e abrindo bem em cima do cidadão à frente. Também não gosto dos que possuem as hastes dobráveis, pois, ao menor sinal de um furacão, viram do avesso e nos abandonam para saírem voando pelos céus.
E quando se faz necessário pegarmos um guarda-chuva emprestado? Isso é uma coisa estarrecedora! E, com certeza, será do vizinho ao lado ou de um amigo. Aí, pelo menos eu, policio-me para não perdê-lo. Agarro-me ao cabo como se fosse levantar vôo juntamente com ele. Amarro fitinhas no meu pulso, ligando-o ao meu corpo. Todavia, minha memória acaba falhando e acabo perdendo-o. Neste momento, o sentimento de culpa prevalece. E se, por acaso, a pessoa o ganhou de um ente querido? Se for de inestimável valor sentimental? Ou uma última lembrança pós-falecimento? Com certeza seu dono nunca mais será o mesmo. Para ajustar as coisas, compro um parecido. Se for da cor preta, comprarei na mesma cor, claro. Mas, caso não haja mais dessa cor, o que fazer? Compro um cinza escuro, ora! E, em meu silencioso e pálido rosto de amigo-cínico, quando o seu dono perguntar-me porque a cor mudou se o dele era preto, irei responder, com um sorriso agradecido, que desbotou devido à chuva forte. Coisas de guarda-chuvas de segunda.
Há momentos em que precisamos fazer um escambo de muita necessidade, evidentemente. Principalmente, quando estamos cheios de documentos importantes e, subitamente, uma chuva densa e grossa parece desabar do céu em nossas cabeças, justamente para nos ensopar os papéis. Neste momento, começamos a negociar tudo que temos de valor em troca de um apara-chuvas. Porém, quase sempre não há necessidade – eu mesmo, de vez em quando, carrego um comigo e não o utilizo.
Mas há uma incansável curiosidade minha sobre onde irão parar estas barracas quando esquecidas? Tu não tens esta mesma e intensa curiosidade? Experimentes esquecer um deles em um restaurante, sair após pagar a conta obviamente, caso contrário acabaras levando uma guarda-chuvada, e lembrar-se que o esqueceu em menos de 40 segundos. Quando voltares para procurá-lo ele, com toda certeza, não estará mais no recinto. E o pior, nenhum dos garçons, garçonetes, copeiros, cozinheiros, ou mesmo os donos do restaurante saberão sobre ele. Aí é que está o mistério da vida - para onde irão os guarda-chuvas perdidos?
Caso tu descubras, caro amigo, remeta-me uma carta solucionando esse mistério, porque, até o momento, a única solução que temos está na resposta do velho poeta: “Vão parar nos anéis de Saturno”.


(Crônica publicada na revista BULA, em 2005, por Angel Cabeza).


Escrito por Angel Cabeza às 21:08
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9/7/2006

SEIS ESTRELAS



Eu não entendo nada de futebol, confesso. Sou o tipo de brasileiro que não liga muito para essas coisas de bolas, homens correndo e gols emplacando pontos, se é que existem pessoas assim. - Nem parece patriota – deves estar pensando. Concordo, plenamente, com o teu lúcido pensamento. Mas é que sou uma pessoa não muito acostumada às peladas (não entendas outro tipo de peladas) que acontecem por aí. E olha que eu jogava futebol quando garoto. Pegava um blusão amarelo, um short azul, um tênis qualquer e ia para o gol imaginário feito com chinelos – na rua – me sentindo um Taffarel, ou para o campo de asfalto – raras vezes – me sentindo um Bebeto. No máximo, conseguia arrancar um Uhhhh alongado da platéia quando jogava. Parei por força do destino após ter levado uma cotovelada no olho em uma falta não cobrada por um juiz infeliz. Fiquei um mês quase carregando um tapa-olho enorme. Talvez por isso não jogue nem sinta mais graça em ver os jogos: traumas de criança. Sou tão ruim quanto o perna-de-pau do circo. Nem me convides para bater uma bola, pois posso quebrar-te a canela. Se for para ficar no gol – diga-se de passagem, a minha posição preferida – até posso pensar, mas nada garantido.
Ah, isso tudo até chegar a Copa. A Copa do mundo esperada por milhões de pessoas no planeta, quer dizer, esperada pelo mundo inteiro e, se duvidar, esperada por outros sistemas galácticos. Somos levados por uma emoção olímpica daquelas que só no carnaval são externadas e até o mais lúgubre Ser amanhece. Porque todos sabem, a Copa é A COPA e não uma copinha qualquer. É como se fosse um desacato religioso não gostar de copa.
E é gostando de Copa que abro a minha garganta num profundo GOOOOL para o time do Brasil. Tudo bem que eles não jogaram lá essas coisas no primeiro jogo, pois o Ronaldo (fenômeno) estava mais pra lá do que pra cá e o único fenômeno que apareceu foi uns quilinhos a mais; muito menos o segundo jogo foi a apresentação do século. Mas, quem sou eu para criticar? Será que eu faria melhor? Bem, para bom torcedor meio chute basta. O importante é bater na redondinha e enterrá-la na rede branca do gol. O importante é COMPETIR.
Copa é lugar para todos, aliás, não tem nem lugar para se andar. São camisas, bolas, bonés, cornetas e outras coisas mais que são quase que jogadas no rosto dos torcedores fiéis e aficionados em futebol, eternizando o Brasil em suas cores e formas. Nunca vi tanta coisa junta representando o Brasil como nos tempos de Copa. Vai de lenços de cabeça até fraldas para crianças e sanduíches ornamentados. É o espírito patriótico que desembainha a sua espada.
Outro dia, flanando por aí, observei um grupo que preparava uma oferenda. E, adivinhem, para que o Brasil seja campeão! Isso sim é patriotismo: em vez de uma galinha preta uma galinha verde e amarela. São tantas as mirabolantes promessas infindas que me perco nas contas. Nunca fiz uma sequer. Inclusive, acho uma besteira. Ao final quem embolsará os milhões não serei eu! Mas que elas existem, ah, isso sim, existem. São dietas fenomenais da lua, do sol, dos astros; dízimo aos pobres, deixar o cabelo crescer até o pé, mandingas e outras coisas. Entretanto, desculpem tocar no assunto, mas o “ser brasileiro”, pelo que vejo, é o que menos importa nestas horas. Venhamos e convenhamos, é incrível como somos apenas patriotas quando estamos interessados em Copa do Mundo. Nunca vi alguém emplacar uma promessa para a fome no mundo baixar ou, ainda, para que o Brasil seja auto-sustentável – o que é difícil. Jamais observei despachos para que o mundo melhorasse em sua ignorância. Nunca vi reivindicarem saúde, alimentação, escolas mais equipadas ou que o nosso ilustríssimo presidente deixasse um pouco de lado as suas medidas provisórias e atentasse mais aos hospitais superlotados. Sinceramente, a única coisa que vejo reivindicarem são os aumentos de salário, isso, diga-se de passagem, apenas para bancários e outros que ganham mais de seis salários mínimos e sempre querem mais. E, quando tudo acaba, as bandeiras são baixadas e o espírito brasileiro da unificação se esvai juntamente com os momentos, que ficam apenas na memória do tempo que, muitas vezes, prefere ser desmemoriado.
Tudo bem, tudo bem, sei que estou de rabugice. Quem sabe uma dessas gripes não me atacou e estou descontente por não ter podido vibrar juntamente com as cornetas nesta Copa?
Apesar de tudo estamos seguindo em frente, com promessas ou sem promessas. Quem sabe um dia seremos todos patriotas de sangue e não apenas de garganta. Claro que existem muitos por aí, e não estou me referindo aos revolucionários, mas apenas na concepção patriota interna dos atos – Hitler é um bom exemplo.
Pelo menos uma coisa é certa, A Copa é A COPA e não uma copinha qualquer. Evoé, Copa, com suas energias que unificam e glorificam o Brasil. Já que a sexta estrela não brilhou no negrume do universo, quem sabe não virá um País melhor?


Escrito por Angel Cabeza às 12:56
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PELAS GAVETAS

Abstrato - Angel Estevez


Revirando alguns guardados acabamos encontrando pedaços de tempo onde estão guardadas coisas, ou que esquecemos ou que queremos que sejam esquecidas.
Abaixo uma pequena série de Haikais livres que deveriam estar esquecidos.


Templo nublado.
Céu nervoso ou
meu coração desesperado?

*

Esta vida eu tiro de letra.
Só não me roubem
a caneta.

*

A vida vai a mil por hora.
E eu aqui neste
imenso engarrafamento.

*

Lua cheia.
O mar é inusitadamente
pequeno.

*

A vida veio vindo
e "foice"
indo.




Escrito por Angel Cabeza às 12:24
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13/5/2006

REFLEXOS DO ESPELHO

Mãe com criança - Pablo Picasso


Na infância, ouvia a mãe pedindo para que não me atirasse do braço do sofá com um pano amarrado ao pescoço, fingindo ser o super-homem. Ouvia o pai solicitando a ingestão dos remédios amargos, os quais eu cuspia diretamente na pia do banheiro dizendo que eles poderiam me amargar por dentro. Sistematicamente, era convencido de que as paredes jamais fariam o papel do papel e as canetinhas não deveriam reluzir nelas; de que os gatos e cachorros não eram brinquedos de estimação ou que não se podiam apertar excessivamente os botões do controle remoto para não desregular a caixa de imagens da sala. Era necessário ser um garoto bom para que Deus, que me olhava do cimo, não ficasse bravo comigo. O andar bem era uma preocupação diária dos pais.

Ao voltar da escola, solicitava à mãe todos os doces das barracas pela calçada sem ser atendido. Reivindicava a pipoca da esquina. Pulava, atirava-me e esperneava. Sentava-me no quarto com meia dúzia de interrogações e deixava as vestes tímidas da porta para fora. Os meus cadernos, além de conservarem a sabedoria, eram feitos de lembranças, textos e amores: a primeira namorada com 8 anos; o primeiro beijo dado com susto. Os segredos são marcas de pele; cicatrizes que deixaram de sagrar e jamais foram descobertas.

Crescemos naquilo que ouvimos. Amadurecemos naquilo que passamos. Somos rebeldes sem uma causa justa, apenas pelo nosso egoísmo de queremos ser atendidos antes que o mundo gire. Crescemos na revolta interna de jamais fazermos com nossos filhos o que foi feito conosco. Quantos foram os namoros proibidos? Quantos foram os sonhos privados por medo? Quantos desejos deixamos de realizar? Quantas conversar terminadas com “ahã”? Quando o pai não nos escutava, achávamos que não existia mais tempo para os nossos devaneios. Queríamos ter o mundo e tínhamos apenas algumas horas. Não enxergávamos o outro lado do espelho. Quando perguntávamos algo a eles vinha sempre a mesma resposta dentro da oca voz: - é coisa de adulto. E adulto se resumia em saber sobre as coisas ocultas. Não tínhamos conhecimento das contas de luz, água, telefone; das compras atrasadas e do jantar que queimou demais; das separações escondidas, com medo de que os filhos sofressem; das máscaras utilizadas para agradar, muitas vezes, escondendo um sofrimento antigo. Achávamos que tudo era um grande carrossel onde os cavalos subiam e desciam. Cobrávamos sorrisos onde apenas podiam existir expressões fechadas. Quando um sorriso brotava não estávamos mais interessados em colhê-lo. E jamais pensávamos em ser como os nossos pais. Nossos filhos se sentiriam como se estivessem em uma roda de crianças. Tudo seria como em um sonho. Eles seriam aquilo que quisessem ser. Nós estaríamos ali apenas para guiá-los, nunca para falar por eles. Entretanto, o espelho reflete sempre aquilo que está à frente dele. E acabamos por ser aquilo que não queremos. Invertemos papéis em cima do ato final.

Fomos presos às regras quando criança para sermos presos às regras quando adultos. Trabalho-casa-casa-trabalho. O ciclo acaba se consumindo na mesma linha. O cansaço dos pais é o cansaço dos filhos. A alegria dos pais é a alegria dos filhos. Não é uma coisa consciente ter um reflexo apagado. Vai além da consciência. É como quando os amantes gravam os nomes a faca em um tronco de árvore – quanto mais bater o tempo mais nítido e fundo eles ficam na eternidade do tronco. Todos as barracas que existiam apagaram-se no expresso do viver. Não adianta mais reivindicar. Estamos sós dentro de nós mesmos.

Faz parte da vida a herança de traços. E agora quem herdou os detalhes foram as minhas filhas. Elas reivindicam o prato de sopa, esperneiam, batem, choram; querem reunir todas as barracas de doces dentro de seus quartos; bradam para falar ao telefone. Peço-lhes atenção ao andar, cuidado ao portar objetos frágeis. Digo-lhes para falar mais baixo ou para se portarem bem, pois existem anjos olhando-as. Tenho que lhes solicitar a ingestão de remédios amargos, ou para não pular do sofá, com medo que se machuquem. Explico-lhes o cuidado com os livros, que não são feitos para servirem de paredes. Às vezes, param a brincadeira para um diálogo comigo. E quando estou pensando em algo que não àquele desejado, voltam a brincar, pensando que jamais serão como eu.

Acabamos por ser o reflexo do pai e a voz da mãe. O que mais tememos na infância se abre na velhice. O que repreendíamos no passado é o que corroboramos na atualidade. Existe um gosto de lembrança nas palavras. Somente entendemos a música quando fazemos parte das notas. E desculpamo-nos por nunca sabermos tocá-las.

Minhas filhas choram, pedem e lacrimejam. Depois sorriem e dormem, lembrando dos nossos momentos. E eu penso em como nós somos iguais, elas, meus pequenos reflexos; eu, um grande espelho.


Escrito por Angel Cabeza às 19:18
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POESIA & POESIA


O poema abaixo iria compor a próxima antologia da Editora Andross, prevista para julho deste ano.
Retirei a mesma da pauta de publicação.

ALGUNS COLECIONAM . . .

Alguns colecionam selos, borboletas e livros.
Distrações de fins de semana.
Eu coleciono nuvens. Variações de todas as coisas.
Mas os sonhos jamais são perenes.
Inesperadamente, alguma se esvai por entre as
frestas dos meus dedos. E eu nunca sei a qual
pedaço de mim ela pertenceu, se a um antigo
sino misterioso ou algum resumo recém terminado.
Não tenho receio de lágrimas.
Todo dia chove um pouco de azul

em meu canteiro de estações.
A verdade encontra-se é nas pequenas
coisas e suas inconstâncias.
E eu vou te contar um segredo:
o sol da manhã não provém
de trás dos montes,
mas da primeira banca
de jornais, que ao acender
as suas luzes de gato alumia
a primeira rajada de céu negro.


Escrito por Angel Cabeza às 19:16
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PROJETO IDENTIDADE



O site de literatura e poesia Projeto Identidade, organizado para a divulgação da poesia, publicou textos meus.
Para visitarem: www.projetoidentidade.org


Escrito por Angel Cabeza às 19:09
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HOMENAGEM – O músico Quintana volta aos concertos



Não se assuste se ao abrir a janela de um livro você se deparar com uma caixinha de músicas onde todos os sonhos do mundo dormem como uma sinfonia. É que ali jaz todo o mel dos concertos de Mário Quintana.
O poeta se tornou o músico da poesia brasileira. Cada linha é uma corda de seu alaúde dourado. E nelas vibram a perene música do tempo.
Em pleno centenário de seu nascimento ele é relembrado através de suas músicas, de suas palavras. “Nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão”. A partir desta afirmação sabemos que ele se faz presente; podemos encontrá-lo sempre perambulando ao abrir os “Preparativos para Viagem” ou o “Baú de Espantos”. Ele está em cada esquina branca de suas ruas e mundos.
Quintana não abria mão de sua multiplicidade literária. Ora descobrimos um trovador e parnasiano moderno, ora descobrimos um romântico esquecido através de seus suspiros saudosos. Sua poesia é quase que uma conversa entre amigos. O seu humor é dosado como em uma caricatura. Suas essencialidades são sublimes “como água bebida na concha da mão”.
Mário Quintana nasceu em 30 de Julho de 1906. Autodidata, traduziu para a editora Globo clássicos como Joseph Conrad, Guy de Maupassant, Virginia Woolf e Marcel Proust - verteu para o português os três primeiros volumes do Em busca do tempo perdido.
Embora mal reconhecido pela crítica durante a sua estadia nesta vida, assim como Adélia Prado, Manoel de Barros e outros, e recusado três vezes pela Academia Brasileira de Letras, Quintana está acima de tudo como um dos grandes poetas brasileiros e da América Latina, sendo agora reeditado pela Editora Globo.
Faleceu em 05 de Maio de 1994.


POEMA DE GARE DE ASTAPOVO

O velho Leon Tolstoi fughiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres
do mundo,
contra uma parede nua. . .
Sentou-se. . . e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a glória,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E então a morte,
Ao v6e-lo tão sozinho àquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali à sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A morte chegou na sua antiga locomotiva
(ela sempre chega pontualmente na hora incerta. . .)

Mas talvez não pensou em nada disso, o grande velho,
E quem sabe se até não morreu feliz: ele fugiu. . .
Ele fugiu de casa. . .
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade. . .
Não são todos os que realizam os velhos sonhos da
infância!


Escrito por Angel Cabeza às 19:07
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14/4/2006

SUPER INTERNÉTICO - CRÔNICA

A Musa - pintura de Pablo Picasso


Rodoval acabara de adquirir um Microcomputador. Havia guardado toda a sua pequena fortuna esperando por esse dia, esse grande dia que, derradeiramente, havia chegado. Conseguiu, finalmente, o seu devaneio querido. Estava felicíssimo, satisfeito e fulgurante com a sua possante máquina de comunicação:
– Agora vou poder papear na net o tempo todo! – Retrucava para si mesmo. – Quem será que eu encontro por lá? Afranésio? Nicolau? Gesovaldo?
Ao chegar em casa, contou para a sua esposa a novidade:
– Ô, Teresa, venha até aqui ver o que eu consegui barganhar! É um microcomputador Pentium.
– Pente o que, Rodoval?
– Nada, nada. Apenas um passatempo para divertir as horas vagas.
– Divertiiiiiir? Venha para a cozinha ver o que é diversão!
Porém, Rodoval era uma felicidade só. Instalou, conectou, ligou, e lá ia o super internético, navegando livremente pelas águas da modernidade.
À noite, sua esposa, afável, mostrava sinais de saudades:
– Rodoval, meu bem, venha para a cama dormir... Já está tão tarde...
Que nada. Rodoval estava mesmo era navegando na página da Playboy.
– O que você está fazendo meu amor? Indagava, sutilmente e ronronando, Teresa.
– Trabalhaaando! Respondia maliciosamente Rodoval. – Trouxe muito serviço para casa hoje.
Assim foram se passando os dias, semanas e meses. Rodoval estava viciado em prosas e elipses digitais. Tanto que a sua esposa mostrava sinais de desagrado, passando a sair todas as tardes, não o requisitando mais na cama, e outras coisas que um casal, em saudável afeto, deve cumprir.
Certo dia Afranésio, vizinho em frente e internauta não tão assíduo quanto Rodoval, comentou:
– Rodoval, você não acha estranho a Teresa estar saindo todas as tardes, conforme o teu relato, para o supermercado? Acho que ela não está fazendo coisa boa não?
– Que nada, ela está é com ciúmes do meu Pentium. – Garantia. -E aí, vamos bater aquele papo na internet hoje?
– Não-sei-não, hein, Rodoval... Se fosse eu ficava de olhos despertos.
E Rodoval, sem se importar com os fraseados de seu amigo, continuava a abrir as portas das salas virtuais.
Em uma certa tarde, Rodoval estava explicitamente apreensivo em virtude de tantas conversas que tivera com o seu amigo. Para completar, Teresa havia saído muito bem vestida, sem dizer o seu destino. E aí é que se instalou a dúvida:
– Para que se arrumar daquele jeito? Não foi apenas fazer algumas compras? Desconfiava, subjetivamente, Rodoval.
Decidiu averiguar isso direto na raiz da questão. Sendo assim, ficou a esperá-la.
Após uma delongada espera, sua mulher entra vagarosa pela porta dos fundos, dando de cara com o seu marido.
– Muito Bonito não é? Isto são horas? Você vive saindo à tarde para fazer compras, toda arrumada, e chega a este horário? Você não me engana! Eu já sei de tudo! E minhas fontes são fiéis e lídimas. Com quem você está andando?
Deletada, Teresa se explica:
– É que eu estou fazendo um curso de Pentium, sabe, e estava, veja você, tentando conectar o cabo do vizinho ao lado...


Escrito por Angel Cabeza às 23:12
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POESIA

Círculos - Abstrato de Angel Estevez


O poema abaixo foi laureado com menção honrosa no concurso de poesia organizado pela Prefeitura Municipal de Saquarema, o I Concurso Nacional de Poesia Alberto de Oliveira.

O júri, coordenado pelo escritor João Costa, foi composto pela jornalista Dulce Tupy, pelo poeta João Galvinício e pelo escritor e poeta Camilo Mota.

A premiação será realizada em maio deste ano.


NOVO DILÚVIO
Angel Cabeza


Um aparelho de barba cego
não é mais triste
do que a escova de dentes esquecida,

sentimento de que tudo se foi.

Um sabonete com as marcas
do último abraço são
laços jogados para sempre no túnel escuro

do infinito.

Uma xícara partida em cima da mesa,
sangrando perdas e sorrisos,
é apenas um lapso indizível

da vida.

Chinelos revisitados
são transeuntes de um coração
exaurido,

consumido pelo dilúvio.

O amor
é um cadafalso
em cada corpo.


Escrito por Angel Cabeza às 23:06
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